O pacto

POR

Rafael Mendes de Barros

Não pensei em teu vão passado lá,
pois também já não perguntaste o meu,
fica da oferenda para Oxalá,
qual se perdeu,

todo o meu desejo, do Amor a senda
para qual tentamos recuperar
prumo; aqui me fartam ao abrir a fenda,
tal é o esperar,

deste coração tão meu quanto teu,
moralismos inúteis de que não podemos
mais fugir, por ora, sem cair no breu
que conhecemos

como hipocrisia… Gira a Roda posta,
Sorte, acaso, tudo vai com o Destino,
tal Samsara vem perseguir-nos… Gosta
mais do refino

deste mundo, a vida das almas, vai
e aprecia cá como tu podes, pois
sabes que o todo daqui se esvai,
homem que é e sois,

finda humanidade…nem deposita
mais que o necessário para Arte, mas
vá a labuta, a Fé ela vale, insista…
Faz e refaz

sem as ilusões: a Comédia, Dante,
não o retirou desse exílio seu,
nem o trouxe para Beatriz que infante
lá padeceu…

Marx não viu sequer a Revolução,
Nietzsche não colheu os tantos frutos
destas glórias tuas… A transformação
sem os astutos

não ocorre, mas sem perder jamais
consciência ao Fado… Van Gogh de longe
fez-se conhecer como artistas tais,
triste se esconde

seu final… E nós que fazer podemos
mais se nem canção, a Vinícius, não
lhe salvou do ocaso seu? pois vivemos
sempre na ação

pela aurora própria ainda que no todo
tudo venha já nos faltar; se é o Karma,
Pacto ou coisa além de outra vida, o lodo
mesmo que se arma

para separar-nos, nem nada posso
por interferir, só Deus é que muda
fado vosso… Venho a rezar pai-nosso:
— Vez nos acuda…